Conflito de gerações ou lacunas entre pontes geracionais?


Muitas vezes, ouço as pessoas dizerem que “esta geração é complicada”, ou “eles são difíceis de lidar”. A afirmação está presente nos mais diversos ambientes: nas escolas, nas conversas em sala de espera e também no mundo corporativo.

Recentemente, refletindo sobre o conflito de gerações, uma perspectiva me pareceu interessante: se uma geração é produto de suas antecessoras, de onde surge o conflito de gerações? Ou, ainda, se a educação e as tecnologias que uma nova geração recebe surgem a partir das gerações anteriores, por que existem os conflitos de gerações?

Em síntese: se ajudamos a criar a geração que vem depois de nós, por que isso nos parece tão conflituoso?

Um dos aspectos pode ser o fato de gerações distintas possuírem modelos mentais formados por quantidades diferentes de informações a serem processadas, tecnologias disponíveis distintas, necessidades, dificuldades e preocupações também distintas.

Mas esta seria a única causa?

Também poderíamos considerar aspectos relacionados ao acolhimento geral entre gerações como um fator relevante. Por exemplo, o fato de achar as gerações mais novas difíceis de lidar pode implicar que as gerações mais novas também achem as anteriores difíceis de lidar, o que gera um tipo de resistência mútua, criando um espaço de coexistência com restrições e impedimentos pré-estabelecidos. É um tipo de pano de fundo que criamos em nossas linguagens mentais e que ajudam a compor nossos comportamentos no dia a dia.

Se há um rótulo já criado de “geração complicada”, tanto ascendente como descendente, necessariamente e paradoxalmente o nosso sistema biológico natural de proteção da espécie está mobilizado para ficar em alerta. Digo paradoxalmente, porque o sistema humano é preparado para que cuidemos uns dos outros.

O paradoxo causa um afastamento-base inicial, como se as primeiras partes de uma ponte já estivessem estruturalmente comprometidas. Então, o que existe é um conflito de gerações ou uma incompreensão que ainda não reconhecemos sobre aspectos que podem ser pontos cegos e que nos impedem de construir pontes mais completas entre as gerações?

Surge a pergunta: o quanto as pontes entre as gerações já estariam comprometidas por causa dos pedaços faltantes, e o quanto de tempo teríamos para preencher essas lacunas sem comprometer a continuidade de uma espécie humana ainda mais saudável?

A continuidade cíclica do paradoxo (cuidado / afastamento) também gera medo, e o medo, se não for identificado e reposicionado, pode nos levar a comportamentos de inação, por não sabermos o que fazer. Aí é uma cilada, Bino! Uma armadilha invisível que pode nos deixar cegos e contraditórios!

No meio corporativo, esta percepção de que existem conflitos entre gerações é bastante frequente. A cilada é que isso pode causar perdas, tanto às organizações quanto aos colaboradores de diferentes gerações.

Reconhecer que existe somente uma incompreensão e pontos cegos a serem tratados é um passo importante para que as interações entre colaboradores de diferentes gerações deixem de ser vividas e tratadas como conflitos e auxiliem a criar uma nova cultura, aberta ao aprendizado e ao desenvolvimento. Isso leva, consequentemente, a maior produtividade e longevidade.

Refletir mais!

As partes que faltam para a construção de pontes entre as gerações estão ligadas a um novo posicionamento - menos resistente e com mais maturidade. Para isso, é necessário refletir mais e criar novas estruturas mentais. Podemos escolher se vamos nos colocar como responsáveis pela cocriação das gerações mais novas, ou se escolhemos apenas quais as partes que queremos assumir.

Se não temos uma receita pronta de como criar as novas gerações para que sejam fortes o suficiente e capazes de nos levar a frente com uma humanidade ainda mais saudável, como estamos comprometidos com isso? O que pensamos e o que fazemos para que isso aconteça?

Mirian Machado Coden* é sócia-fundadora da Nortus e instrutora da Formação em Gestão Contemporânea. Possui mais de 20 anos de experiência com o desenvolvimento de uma estrutura genuína para a modificação dos sistemas comportamentais humanos, realizando mais de 9 mil assessorias pessoais. É filósofa com mestrado em Educação, pós-graduação em Pedagogia Empresarial e Educação Corporativa e doutoranda em Educação pela Universidade Internacional Iberoamericana do México.

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